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Media Tech: retrospectiva e perspectivas sobre as transformações da indústria

Executivo do CIS Group, Guilherme Silva analisa mudanças recentes em monetização, produção, streaming e TV aberta, apontando tendências que devem moldar o futuro do setor

Por Ricardo Batalha

Nos últimos 12 a 24 meses, a indústria de mídia passou por uma série de transformações tecnológicas que, embora parecessem pequenas de forma isolada, começaram a redesenhar o modelo tradicional de televisão. A avaliação é de Guilherme Silva, cofundador e presidente executivo do CIS Group, em análise sobre o momento atual do setor de Media Tech.

Segundo ele, a combinação de novas tecnologias, mudanças nos hábitos de consumo e novas formas de monetização está aproximando a indústria de um modelo híbrido em que criação de conteúdo, distribuição e comércio tendem a se integrar em um mesmo fluxo.

Um dos movimentos mais evidentes ocorre na monetização. O crescimento das assinaturas desacelerou em vários mercados, enquanto a publicidade retornou com novas características. Os anúncios se tornaram mais curtos, direcionados e muitas vezes incorporados diretamente ao conteúdo. Ao mesmo tempo, criadores em plataformas como YouTube e TikTok passaram a depender cada vez mais de acordos com marcas e links afiliados, que em muitos casos geram mais receita do que anúncios tradicionais.

Empresas de mídia também começaram a diversificar suas fontes de receita com iniciativas como paywalls, programas de membros, eventos, comércio eletrônico e até jogos digitais. A lógica por trás dessas estratégias é aproximar os produtores de conteúdo de públicos específicos, o que tende a aumentar o potencial de monetização.

Na área de produção, o cenário apresenta um paradoxo. As ferramentas ficaram mais acessíveis e eficientes, principalmente com o uso de inteligência artificial para tarefas repetitivas como criação de storyboards, edição preliminar, geração de legendas e adaptação de conteúdos para diferentes plataformas. Ao mesmo tempo, a exigência do público por qualidade narrativa e técnica aumentou, o que mantém elevados os custos de produção criativa.

O avanço da inteligência artificial, combinado com redes móveis de alta velocidade como o 5G, também deve reduzir as fronteiras entre produção em campo, estúdio e operações remotas, acelerando mudanças nos fluxos de trabalho e exigindo equipes menores, porém mais especializadas tecnicamente.

Outro campo de disputa crescente é o conteúdo ao vivo. Grandes empresas de tecnologia como Amazon, Apple, Netflix e Google vêm investindo em direitos de transmissão de esportes e entretenimento. Esses eventos continuam sendo um dos poucos momentos capazes de concentrar grandes audiências simultâneas, o que gera impactos em assinaturas, vendas de dispositivos e até comércio eletrônico.

Para ligas esportivas e produtores de conteúdo, essas plataformas oferecem não apenas recursos financeiros, mas também acesso a dados detalhados sobre o comportamento do público. Já as emissoras tradicionais ainda mantêm vantagem em alcance e confiabilidade de transmissão, mas enfrentam concorrência crescente de ecossistemas digitais capazes de subsidiar conteúdo com outras fontes de receita.

Apesar das mudanças, a televisão aberta não está desaparecendo, segundo Silva. Ela passa por uma transformação estrutural impulsionada por novos padrões de transmissão que combinam broadcast e banda larga, como o ATSC 3.0 nos Estados Unidos e o DTV+ no Brasil.

Essas tecnologias permitem que a transmissão terrestre continue oferecendo grande alcance e confiabilidade, mas incorporando recursos típicos das plataformas digitais, como publicidade segmentada, interatividade e métricas de audiência mais precisas. Nesse cenário, o guia eletrônico de programação pode evoluir para interfaces semelhantes às telas iniciais de aplicativos, enquanto transmissores passam a funcionar como verdadeiras redes de distribuição de conteúdo.

Silva observa ainda diferenças relevantes entre os mercados brasileiro e norte-americano. Nos Estados Unidos, a queda da TV por assinatura e a fragmentação do consumo entre múltiplas plataformas enfraqueceram parte da audiência tradicional. No Brasil, por outro lado, a TV aberta continua desempenhando papel central no entretenimento diário de milhões de pessoas, principalmente devido ao custo zero para o consumidor e à forte presença de programação nacional.

Esse contexto pode transformar o país em um ambiente favorável para a adoção direta de modelos híbridos de televisão, que combinam transmissão aberta com recursos digitais avançados.

Para empresas de mídia que buscam se adaptar ao novo cenário, o executivo aponta algumas direções estratégicas. Entre elas estão aproximar o conteúdo das transações comerciais, tratar a distribuição como um desafio de engenharia e não apenas de distribuição tradicional, investir em conteúdos locais e transmissões ao vivo, utilizar inteligência artificial para reduzir custos operacionais e adotar métricas claras para comprovar resultados.

Na avaliação de Silva, o principal desafio da indústria não será apenas produzir mais conteúdo, mas controlar a relação com audiência e anunciantes. Plataformas digitais já dominam esses pontos de contato, enquanto emissoras e criadores precisam desenvolver novas estratégias para manter relevância.

Ele conclui que as mudanças recentes podem parecer incrementais, mas tendem a redefinir a própria ideia de televisão. Em um futuro próximo, o conceito de TV pode combinar simultaneamente conteúdos gratuitos, personalizados, ao vivo e sob demanda dentro de uma mesma experiência de consumo. Nesse ambiente, as empresas que prosperarem serão aquelas capazes de operar com eficiência em todos esses modelos ao mesmo tempo.

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