Por Victor Hugo Piiroja
A Copa do Mundo de 2026 não foi marcada apenas pelo que aconteceu dentro dos estádios. Para o mercado audiovisual, o torneio representou uma mudança importante na disputa pela produção, distribuição e monetização do conteúdo esportivo.
No Brasil, o público teve diante de si uma oferta sem precedentes. A CazéTV transmitiu gratuitamente os 104 jogos da competição, enquanto Globo, sportv, ge TV, SBT, N Sports e suas respectivas plataformas digitais construíram estratégias próprias de cobertura. A partida, portanto, não ocorreu apenas entre as seleções. Houve também uma competição entre emissoras, plataformas, tecnologias, linguagens e experiências de consumo.
A televisão aberta permaneceu forte, mas deixou de ser o único destino natural para quem desejava acompanhar uma Copa do Mundo. O streaming passou a disputar, em escala massiva, a atenção do torcedor, os investimentos dos anunciantes e, principalmente, a maior tela da casa.
Uma audiência digital que não pode mais ser tratada como alternativa
Os números alcançados pela CazéTV ajudam a dimensionar a mudança. Em apenas 21 dias de competição, o canal informou ter alcançado 100 milhões de dispositivos únicos em suas transmissões. Na semifinal entre França e Espanha, a CazéTV registrou pico de aproximadamente 24,2 milhões de aparelhos conectados simultaneamente, estabelecendo um novo recorde para uma transmissão ao vivo no YouTube. Na final entre Espanha e Argentina, mesmo dividindo o público com diferentes emissoras, o canal chegou a cerca de 20,9 milhões de acessos simultâneos.
Esses números não significam necessariamente 100 milhões de pessoas. Um mesmo usuário pode acessar as transmissões por diferentes dispositivos, enquanto um televisor conectado pode reunir várias pessoas em uma única sala. Ainda assim, a escala alcançada demonstra que a transmissão digital deixou de ser complementar.
O cenário não significou o desaparecimento da televisão aberta. Na estreia do Brasil contra Marrocos, o ecossistema da Globo — somando TV Globo, sportv e ge TV — alcançou 49,9 milhões de pessoas. Na TV Globo, a partida marcou 33 pontos no Painel Nacional de Televisão e 55% de participação entre os televisores ligados.
O SBT, em parceria com a N Sports, também obteve resultados expressivos. No dia da estreia brasileira, sua cobertura alcançou 22,5 milhões de pessoas, com crescimento de 322% na audiência nacional em comparação com a média das quatro semanas anteriores.
A conclusão não é que o streaming tenha eliminado a televisão aberta. O que aconteceu foi uma ampliação real da concorrência.
Métricas diferentes exigem comparações responsáveis
Existe, porém, uma ressalva fundamental. Os números divulgados pelos serviços digitais não podem ser comparados diretamente com os dados tradicionais de audiência televisiva.
A televisão trabalha com métricas como pessoas alcançadas, audiência média, pontos e participação sobre o total de televisores ligados. As plataformas digitais costumam informar dispositivos únicos, usuários conectados, visualizações e picos simultâneos.
Quando a CazéTV registra 24 milhões de aparelhos simultaneamente conectados e a Globo informa alcance de quase 50 milhões de pessoas em uma partida, os dados revelam a dimensão de cada operação, mas não representam exatamente a mesma coisa.
Essa diferença metodológica se torna um dos grandes desafios para anunciantes, agências e detentores de direitos. O mercado precisará avançar em direção a modelos que permitam entender melhor a audiência total, a duplicação entre plataformas, o tempo assistido, a retenção, o número de pessoas por tela e o comportamento do consumidor em diferentes dispositivos.
A fragmentação não reduz necessariamente o público. Ela torna sua medição mais complexa.
O streaming chegou à sala de estar
Talvez o dado mais importante da Copa para o mercado audiovisual não seja apenas o pico de audiência da CazéTV. Entre 11 de junho e 5 de julho, mais de 70% do tempo de exibição das transmissões da Copa feitas pela CazéTV no Brasil ocorreu em televisores conectados. Esse número desconstrói a ideia de que o streaming esportivo é consumido predominantemente em celulares, tablets e computadores.
A audiência digital entrou definitivamente na sala de estar. O streaming não está somente competindo com a televisão: está sendo assistido dentro do próprio televisor, ocupando o mesmo ambiente e disputando a preferência do público por meio dos aplicativos instalados na smart TV.
A questão deixou de ser “TV contra internet”. Para grande parte do público, a decisão passou a acontecer no controle remoto: qual aplicativo ou canal será aberto para assistir à partida?
Essa mudança afeta fabricantes de televisores, desenvolvedores de sistemas operacionais, plataformas de distribuição, emissoras e produtores. A visibilidade de um aplicativo na tela inicial, a facilidade de acesso, o tempo de carregamento e a estabilidade do sinal passam a influenciar a escolha quase tanto quanto o narrador ou a equipe de comentaristas.
Qualidade de imagem ou menor latência?
Durante os jogos do Brasil, essa disputa ficou muito clara dentro da minha própria casa. Parte da família queria acompanhar a partida pela Globo, principalmente pela menor latência e pelo risco reduzido de ouvir o vizinho comemorar um gol antes de vê-lo na tela. Outra parte preferia assistir pela CazéTV, atraída pela imagem em 4K, pela linguagem mais descontraída e pela experiência oferecida pelo streaming. A CazéTV disponibilizou gratuitamente os jogos em 4K, transformando a resolução em um argumento importante de escolha para quem possuía televisor e conexão compatíveis.
A discussão foi especialmente intensa nos jogos da Seleção Brasileira. O episódio pode parecer apenas uma situação doméstica, mas representa uma questão relevante para toda a indústria: o que pesa mais na escolha de uma transmissão ao vivo?
A qualidade de imagem, latência, estabilidade, identificação com os apresentadores ou até mesmo a possibilidade de participar de uma comunidade em tempo real?
A televisão aberta ainda possui uma vantagem importante na entrega terrestre do sinal, especialmente em eventos nos quais poucos segundos fazem diferença. O streaming precisa passar por processos de codificação, empacotamento, distribuição pela internet e armazenamento temporário no dispositivo, o que pode ampliar o atraso.
Por outro lado, as plataformas digitais oferecem alta resolução, dados de uso, interatividade, distribuição multiplataforma e uma experiência que pode continuar muito além dos 90 minutos.
Para a indústria audiovisual, o objetivo não deve ser escolher entre um modelo e outro, mas reduzir as limitações técnicas do streaming enquanto se preservam suas vantagens.
A CazéTV demonstrou que o produto transmitido pela internet não precisa reproduzir exatamente a linguagem da televisão tradicional. O canal combinou narração, entretenimento, humor, influenciadores, participação do público, redes sociais e conteúdos produzidos antes e depois das partidas.
Nesse modelo, o jogo deixa de ser um produto isolado. Ele passa a fazer parte de um fluxo contínuo de vídeos, cortes, memes, comentários, bastidores e reações.
O caso do goleiro Vozinha, de Cabo Verde, é um exemplo. Ele começou a competição com aproximadamente 40 mil a 50 mil seguidores no Instagram. Depois de sua atuação contra a Espanha e de uma campanha promovida pela CazéTV durante a transmissão, ganhou milhões de novos seguidores. Ao longo do torneio, seu crescimento chegou a aproximadamente 27,4 milhões de seguidores adicionais.
O desempenho esportivo foi o ponto de partida, mas a transmissão digital transformou a atuação do jogador em uma mobilização coletiva. O público não apenas assistiu às defesas: recebeu um chamado para participar diretamente da história.
Erling Haaland foi outro fenômeno dentro e fora de campo. O jogador ganhou quase 31 milhões de seguidores no Instagram durante a competição, mostrando como a Copa pode transformar atletas já conhecidos em personalidades de alcance ainda mais amplo.
A presença de IShowSpeed na cerimônia oficial de encerramento reforçou essa convergência. Um criador que construiu sua audiência originalmente nas plataformas digitais passou a integrar o próprio espetáculo oficial da final da Copa do Mundo.
Os criadores deixaram de ser apenas comentaristas externos do evento. Tornaram-se parte do produto.
O impacto para o mercado audiovisual
Para fabricantes, emissoras, produtoras, integradores e empresas de tecnologia, essa transformação abre novas oportunidades e também cria novas exigências.
Uma transmissão esportiva digital em escala nacional depende de uma cadeia complexa. É necessário captar e produzir as imagens, transportar os sinais, codificar diferentes resoluções, distribuir o conteúdo por redes e CDNs, monitorar a qualidade da experiência, proteger os direitos e entregar o sinal a milhões de dispositivos com estabilidade.
Também cresce a demanda por produção remota, conectividade 5G, contribuição por IP, infraestrutura em nuvem, transcodificação, legendagem automatizada, inserção dinâmica de publicidade, clipping em tempo real e ferramentas capazes de produzir conteúdos para diferentes redes sociais durante a própria partida.
Ao mesmo tempo, os produtores precisam pensar em múltiplos formatos. A imagem principal continua sendo produzida para a televisão, mas os melhores momentos também precisam funcionar no celular, em vídeos verticais, cortes curtos e publicações quase instantâneas.
A disputa deixou de acontecer somente pela melhor transmissão da partida. Ela envolve quem consegue prolongar a vida útil do conteúdo, gerar conversas e manter o público dentro de seu ecossistema depois do apito final.
O crescimento da CazéTV deve ser observado dentro de um movimento internacional maior.
A Apple passou a disponibilizar, em 2026, todas as partidas da MLS dentro da assinatura do Apple TV, além de construir um portfólio de esportes ao vivo que inclui a Fórmula 1 nos Estados Unidos e o “Friday Night Baseball”.
A Netflix também ampliou sua atuação em conteúdo ao vivo, com WWE e uma programação crescente de jogos da NFL.
Essas empresas não precisam necessariamente adquirir imediatamente os direitos de uma Copa do Mundo para provocar mudanças no mercado. Elas já estão acostumando o consumidor a abrir aplicativos para acompanhar eventos ao vivo.
Além dos recursos financeiros, as grandes plataformas possuem infraestrutura global, dados sobre seus usuários, sistemas de recomendação, capacidade de distribuição e relações diretas com milhões de assinantes.
Nesse novo ambiente, a competição pelos direitos esportivos tende a envolver não apenas emissoras e operadoras de televisão, mas também empresas de tecnologia, plataformas de vídeo, redes sociais e criadores com comunidades próprias.
A TV 3.0 como resposta da radiodifusão
A televisão aberta brasileira também está se preparando para esse novo cenário.
O Decreto nº 12.595, publicado em agosto de 2025, estabeleceu o padrão tecnológico da TV 3.0 e definiu características como qualidade audiovisual superior, integração entre radiodifusão e internet, catálogo de aplicativos, segmentação geográfica e personalização de conteúdo.
Em abril de 2026, foi inaugurada em Brasília uma estação de testes da nova tecnologia, marcando uma etapa prática da implantação do sistema.
A TV 3.0 poderá permitir que as emissoras abertas combinem a eficiência e o alcance do sinal terrestre com aplicativos, interatividade, dados, conteúdos sob demanda e serviços distribuídos pela internet. Essa convergência pode reduzir a distância entre os dois modelos.
A televisão aberta não precisará deixar de ser broadcast para incorporar recursos digitais. Da mesma forma, o streaming continuará buscando menor latência, maior estabilidade e uma experiência coletiva mais próxima daquela que historicamente caracterizou os grandes eventos televisivos.
A disputa pela tela principal está apenas começando
A Copa do Mundo de 2026 não decretou a derrota da televisão aberta. Os números da Globo e do SBT demonstraram que a radiodifusão continua tendo uma enorme capacidade de alcance e mobilização.
O torneio também não mostrou que o streaming resolveu todos os seus desafios. Latência, estabilidade, mensuração e dependência da qualidade da conexão ainda influenciam a experiência. O que a Copa revelou foi a consolidação de um ecossistema híbrido.
A televisão continua oferecendo facilidade de acesso, cobertura nacional, tradição e menor atraso. O streaming oferece alta resolução, interatividade, dados, novas linguagens e capacidade de distribuir o conteúdo por diferentes dispositivos.
A mudança mais importante talvez seja esta: o streaming deixou de disputar apenas o telefone celular. Ele passou a ocupar a maior tela da casa.
Temos novos times em campo. Emissoras, plataformas tecnológicas, streamers, influenciadores, atletas e fabricantes de dispositivos agora participam da mesma competição.
A próxima disputa não será apenas pelos direitos de transmissão. Será pelo aplicativo que o espectador abrirá, pela personalidade em quem confiará, pela experiência que escolherá e pelo ecossistema no qual continuará conectado depois do encerramento da partida.
A Copa terminou. A disputa pela tela principal está apenas começando.
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