Seis microfones valvulados Neumann U 67, tradicionalmente associados a estúdios de gravação, estão sendo utilizados nos palcos da turnê do Foo Fighters. A iniciativa é do engenheiro de som Antony King, responsável pela mixagem de PA (FOH) da banda, que levou os microfones para a captação dos amplificadores de guitarra durante as apresentações em estádios.
Lançado em 1960 como sucessor do U 47, o U 67 foi projetado para trabalhar com microfonação próxima e suportar elevados níveis de pressão sonora (SPL), graças ao seu sofisticado circuito valvulado. O modelo se tornou um dos microfones mais emblemáticos da década de 1960 e ajudou a definir o som de inúmeras gravações.
King construiu sua trajetória profissional na Britannia Row Productions, em Londres, e trabalhou por mais de uma década com o Depeche Mode, além de atuar com Nine Inch Nails, The Cure e Noel Gallagher’s High Flying Birds. Sua relação com o Foo Fighters começou nas transmissões ao vivo realizadas pela banda durante a pandemia. Ele passou a integrar a equipe em tempo integral depois dos shows em homenagem a Taylor Hawkins.
“Era um sonho meu havia muito tempo. Estamos falando de uma das maiores bandas de rock do mundo, o Foo Fighters. Por que não utilizar um dos melhores microfones já fabricados?”, comentou King.
A ideia permaneceu em sua cabeça durante anos. “Eu ficava pensando: será que é possível? Estou ficando maluco? É uma boa ideia?”, recordou. O projeto começou a ganhar forma depois de uma conversa com a equipe da Neumann, que havia disponibilizado um conjunto de microfones miniatura de lapela MCM 114 para testes. “Eu disse que precisava que a Neumann estivesse envolvida para que pudéssemos descobrir juntos como fazer isso.”
O primeiro contato de King com o potencial do U 67 na sonoridade da banda aconteceu anos antes, no Studio 606, espaço de gravação próprio do Foo Fighters, que abriga o lendário console Neve utilizado no Sound City. Durante uma sessão, um antigo U 67 foi posicionado diante de um amplificador de guitarra. “De repente, todos nós pensamos: uau, isso é incrível.”
Os músicos dedicam muito tempo à construção de suas sonoridades, explica o engenheiro. “Chris tem uma quantidade enorme de pedais diferentes, e cada música tem um som interessante. Eu queria captar tudo isso com perfeição. Queria um microfone realmente transparente.”
A dinâmica de execução também foi determinante. “Dave aumenta e diminui o volume da guitarra e, às vezes, toca muito suavemente. Com o U 67, é possível captar cada nuance que sai dos alto-falantes”, observou King.
Em estádios, as coberturas das arquibancadas podem refletir o ruído da plateia de volta ao campo, enquanto a clareza do som diminui à medida que a distância aumenta. “Quando você chega ao fundo de um estádio, é como se o som estivesse sendo lançado por um túnel de vento”, explicou. A solução, segundo ele, começa na origem do sinal: “Se você parte de uma fonte realmente clara, quando o som chega ao fundo, ainda estará claro”.
Além da qualidade sonora, a instalação precisava atender às exigências de uma turnê de grande porte. Cada U 67 posicionado diante de um amplificador exige o microfone, a suspensão elástica, um suporte para fixação no amplificador e uma fonte de alimentação. Guardar todo o conjunto corretamente também demanda tempo e cuidado.
“São pelo menos dez minutos, e tenho seis desses microfones. Não posso acrescentar uma hora à desmontagem do palco. Não quero que minha equipe durma uma hora a menos por causa de uma ideia maluca minha”, afirmou King.
O plano inicial previa instalar as fontes de alimentação na lateral do palco e conectar os microfones por meio de um único multicabo. A proposta, porém, foi descartada após uma conversa com os engenheiros da Neumann. O cabo UC 5 transporta tanto as tensões necessárias à alimentação da válvula quanto o sinal de áudio, e seu comprimento faz parte das especificações do sistema. “Não é possível simplesmente aumentar esse comprimento”, explicou.
A solução foi transferir as fontes de alimentação para o centro do palco. King reuniu os equipamentos em suportes para rack, com a alimentação elétrica e os cabos já conectados internamente. Um conjunto de cabos previamente preparado segue até os amplificadores, com comprimentos definidos para cada posição.
Ao final de cada apresentação, o U 67 é retirado do amplificador ainda montado, incluindo a suspensão elástica, e colocado diretamente em um estojo Pelican com recortes de espuma para acomodar todo o conjunto. Há também um procedimento fundamental de segurança: as fontes de alimentação precisam ser desligadas antes da desconexão dos microfones. Retirar um microfone valvulado enquanto ainda está energizado pode danificar a válvula.
King pediu cuidado à equipe de palco, mas não quis que os equipamentos recebessem tratamento especial. “Eu disse aos técnicos: não deixem esses microfones caírem. Apenas tenham um pouco de cuidado. Mas também queria que fossem tratados como todos os outros microfones do palco. Não queria que se tornassem mascotes”, brincou.
As condições climáticas representaram outro desafio durante a turnê. Embora os palcos sejam cobertos, parte da chuva pode atingir os equipamentos em noites de mau tempo. Seguindo a recomendação da Neumann, a equipe instalou filtros de proteção contra vento e plosivas como primeira barreira. Microfones dinâmicos também permanecem montados como alternativa de segurança.
Depois de oito meses enfrentando tempestades e ondas de calor, nenhum dos U 67 apresentou falhas. “Ainda não conseguimos quebrar nenhum deles em sete ou oito meses”, comentou King.
O engenheiro acredita que a reputação de fragilidade dos microfones valvulados não corresponde necessariamente à realidade. “Tenho certeza de que algum estagiário de estúdio já deixou um cair, pensou ‘ops’, colocou de volta na caixa e ele continuou funcionando normalmente. Por isso, achei que resistiria.” As unidades utilizadas na turnê são de fabricação atual, produzidas artesanalmente na Alemanha e seguindo as especificações originais do modelo.

A experiência com outro produto da Neumann também trouxe resultados positivos. O sistema de microfones miniatura MCM 114 chegou às mãos de King sem grandes expectativas. “Pensei: ah, tudo bem, mais um microfone para tons. Para ser sincero, não estava muito empolgado”, admitiu.
A oportunidade de testar o equipamento surgiu durante os ensaios para a apresentação de reunião do Nirvana no evento beneficente FireAid, em janeiro de 2025, quando Dave Grohl voltou à bateria. King instalou os microfones nos tons e seguiu com outras atividades.
A reação veio do engenheiro de monitor. “Quando voltei à sala de controle, ele perguntou: o que é isso? O que você mudou? Adorei!”, contou.
Antes de confiar no sistema durante a turnê, King submeteu os microfones a um teste pouco convencional. “Peguei uma baqueta e bati com toda a força que consegui, quatro ou cinco vezes. Depois, tocamos novamente. Acho que passou no teste.” Outro aspecto importante foi a rejeição de sons indesejados. “As pessoas esquecem que ele é um bom microfone para tons, mas, se captar todos os pratos, não será muito útil para mim.”
Para King, os U 67 são apenas o começo. Sua lista de desejos já inclui microfones U 47 para captação aérea da bateria, além de modelos TLM 102, TLM 103 ou até mesmo um M 147 Tube para a caixa.
“Por que não continuar tentando melhorar? Por que não experimentar? Algumas coisas não funcionam, outras funcionam”, afirmou. Seu conselho a outros engenheiros de áudio é direto: “Se alguém está pensando em fazer isso, faça, porque não é tão complicado assim”.
Após oito meses de turnê, os U 67 já fazem parte da rotina da equipe. “Eles são tratados como microfones normais”, concluiu King. “A diferença é que soam muito bem.”
Site relacionado: https://www.neumann.com
Acompanhe a Panorama Audiovisual no Facebook e YouTube