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Panorama 10P: Ricardo Lopez analisa a transformação do audiovisual no Brasil e na América Latina

Na estreia da nova coluna da Panorama Audiovisual, o fundador e CEO do Grupo Pinnacle fala sobre a expansão do mercado para novas verticais, a evolução das transmissões esportivas, a democratização da tecnologia, o crescimento das igrejas e as tendências que devem orientar o futuro da indústria

Por Redação

Por Panorama Audiovisual

A Panorama Audiovisual apresenta o Panorama 10P, sua nova coluna de entrevistas com executivos, empreendedores e profissionais que ocupam posições estratégicas na transformação do mercado audiovisual. A proposta é direta: dez perguntas para compreender a trajetória, a visão de negócios e as perspectivas de quem está ajudando a construir o futuro do setor. Em cada edição, o Panorama 10P abrirá espaço para discussões sobre tecnologia, inovação, gestão, modelos de negócios, novas verticais, comportamento dos consumidores e os desafios enfrentados pela indústria no Brasil e na América Latina.

Para inaugurar a coluna, conversamos com Ricardo Lopez, fundador e CEO do Grupo Pinnacle, empresa com mais de duas décadas de atuação no mercado e presença regional, responsável pela distribuição de fabricantes como Blackmagic Design, Anton Bauer, E-Image, Fujifilm, entre outras marcas de tecnologia para produção, transmissão, streaming, fotografia e cinema digital.

Ao longo da entrevista, Lopez analisa a mudança no perfil dos clientes, a necessidade de os canais de venda assumirem uma atuação mais consultiva, a expansão do audiovisual para igrejas, universidades, empresas, clubes esportivos e creators, além do impacto do streaming, da produção remota, do vídeo sobre IP, da nuvem e da inteligência artificial.

1. Olhando para o mercado audiovisual brasileiro e latino-americano, quais são hoje as principais mudanças estruturais que você enxerga no comportamento dos clientes, nos canais de venda e nos novos perfis de produção?
Ricardo Lopez:
Hoje, o cliente não procura apenas um equipamento. Ele busca uma solução que funcione, que seja simples de operar e que possa crescer junto com o seu projeto. O perfil de quem produz conteúdo também mudou muito. Antes, o mercado estava concentrado em emissoras de televisão, produtoras e grandes estruturas. Hoje, temos igrejas, universidades, empresas, clubes esportivos, creators e canais digitais produzindo com qualidade profissional.

Nos canais de venda, acontece algo semelhante. O revendedor precisa deixar de ser apenas um ponto de comercialização para se transformar em um consultor. Ele precisa conhecer o produto, demonstrar suas aplicações e ajudar o cliente a construir um fluxo de trabalho completo. A principal mudança é que o mercado está deixando de comprar produtos isolados e passando a buscar ecossistemas integrados, com suporte, capacitação e possibilidades de crescimento.

2. O Grupo Pinnacle construiu uma trajetória de mais de duas décadas no audiovisual e atua com presença regional. Como essa experiência ajuda a entender as diferenças entre o mercado brasileiro e os demais mercados da América Latina?
Mais de duas décadas de atividade nos ensinaram que não existe uma única América Latina. Cada país possui sua própria dinâmica comercial, tributária, cambial e cultural. O Brasil tem escala, uma indústria audiovisual muito desenvolvida, grandes emissoras, produtoras, igrejas e eventos, além de um mercado digital extremamente ativo. Ao mesmo tempo, exige presença local, estoque, suporte, relacionamento comercial e uma estratégia específica para cada canal.

Em outros mercados latino-americanos, muitas vezes encontramos estruturas menores, mas também maior velocidade na adoção de novas tecnologias e de modelos de produção mais eficientes. Nossa experiência regional nos permite compreender essas diferenças e adaptar a estratégia de cada fabricante. Não se trata de importar um modelo utilizado em outro país, mas de combinar uma visão regional com uma execução verdadeiramente local.

3. Como distribuidor, o Grupo Pinnacle está em uma posição privilegiada entre fabricantes globais, revendas, integradores e usuários finais. O que mudou na forma como as marcas precisam se relacionar com o mercado para crescer de maneira sustentável?
As marcas não podem mais se relacionar com o mercado apenas por meio de uma lista de preços ou de lançamentos de produtos. Para crescer de maneira sustentável, é necessário construir um ecossistema. Isso inclui distribuidores comprometidos, revendedores capacitados, integradores preparados, disponibilidade de produtos, políticas comerciais claras, suporte técnico, garantia e ações de geração de demanda.

Também é fundamental ouvir o mercado. Muitas vezes, o fabricante possui uma visão global, mas o distribuidor conhece os problemas específicos de cada país, como impostos, financiamento, concorrência informal, disponibilidade de produtos e necessidade de capacitação. Nosso trabalho consiste justamente em conectar essas duas realidades. O distribuidor moderno não é apenas um intermediário logístico. Ele precisa desenvolver a marca, proteger o canal e transformar a tecnologia em oportunidades reais de negócios.

4. Nos últimos anos, o audiovisual deixou de ser uma demanda concentrada em emissoras, produtoras e cinema e passou a ganhar força em igrejas, educação, eventos corporativos, creators, clubes esportivos e plataformas digitais. Como essa expansão para novas verticais impacta a estratégia do Grupo Pinnacle?
Essa expansão aumentou significativamente o tamanho do mercado, mas também nos obrigou a mudar a maneira como apresentamos as soluções. Uma igreja, uma universidade, um creator e uma emissora podem utilizar tecnologias semelhantes, mas possuem objetivos, equipes de trabalho e orçamentos completamente diferentes. Por isso, não podemos apresentar o mesmo projeto para todos.

Nossa estratégia consiste em trabalhar por verticais, compreender as necessidades específicas de cada segmento e desenvolver soluções completas, envolvendo captação, áudio, iluminação, comunicação, produção ao vivo, streaming e pós-produção.
Também investimos muito em demonstrações, workshops, capacitações e eventos. Esses novos clientes precisam experimentar a tecnologia e compreender como ela pode melhorar sua comunicação. Muitas vezes, a capacitação é tão importante quanto o próprio equipamento.

5. A Copa do Mundo de 2026 mostrou um fenômeno importante no Brasil, com as transmissões digitais conquistando grande relevância e a CazéTV levando gratuitamente os 104 jogos ao YouTube. O que esse movimento revela sobre o futuro da transmissão esportiva e da produção ao vivo?
O fenômeno da CazéTV confirma que as transmissões esportivas não pertencem mais exclusivamente à televisão tradicional. A distribuição digital ganhou escala, qualidade técnica e relevância comercial. A transmissão gratuita dos 104 jogos pelo YouTube demonstrou que o público busca acesso simples, mobilidade, interação e uma linguagem mais próxima. A audiência não quer apenas assistir: ela também quer comentar, compartilhar e participar da experiência. Isso não significa o fim da televisão. Significa que televisão, streaming, redes sociais e creators passam a fazer parte de um mesmo ecossistema.

Para o mercado audiovisual, esse movimento cria uma oportunidade enorme. Surgem novas produtoras, canais e formatos que demandam produção multicâmera, conectividade, gráficos, áudio, distribuição multiplataforma e estruturas mais flexíveis.
O futuro das transmissões esportivas será cada vez mais híbrido, digital e orientado à comunidade.

6. O próprio Grupo Pinnacle divulgou recentemente o case da Rádio Exclusiva, que saiu de uma transmissão pela internet para uma operação ligada à cobertura da Copa do Mundo, com apoio tecnológico da empresa. O que esse tipo de história mostra sobre o novo perfil de oportunidades no audiovisual?
A história da Rádio Exclusiva demonstra que um projeto não precisa nascer grande para alcançar uma grande oportunidade. Ele precisa ter talento, identidade, conexão com a audiência e capacidade para evoluir. O projeto começou com transmissões esportivas interativas pela internet. Quando conhecemos o trabalho de Fabio Stefanini, identificamos seu potencial e começamos a acompanhar sua evolução tecnológica.

Primeiro chegaram as câmeras PTZ profissionais. Depois, foram incorporados sistemas de produção ao vivo da Blackmagic Design, equipamentos de áudio, acessórios e soluções para streaming multicâmera. Com maior qualidade e estabilidade, a Rádio Exclusiva ampliou sua presença em eventos, ganhou credibilidade e passou a integrar a Rede Ronaldo. Durante a Copa do Mundo, a equipe trabalhou em Miami, na Casa Rede Ronaldo, produzindo conteúdos dentro de uma estrutura que também recebeu operações da ESPN e do Disney+. Para nós, esse caso demonstra que o novo audiovisual muitas vezes nasce fora das estruturas tradicionais. Nosso trabalho é identificar esses talentos e ajudá-los a transformar uma boa ideia em uma operação profissional.

7. A Blackmagic Design tem um papel muito forte na democratização do acesso às tecnologias de produção, transmissão e pós-produção. Do ponto de vista de um distribuidor, como produtos mais acessíveis e integrados mudaram o tamanho do mercado endereçável no Brasil?
A Blackmagic Design teve um papel fundamental na expansão do mercado porque conseguiu combinar qualidade profissional, integração e preços acessíveis. Tecnologias que anteriormente estavam limitadas a grandes emissoras e produtoras passaram a estar disponíveis para universidades, igrejas, pequenas produtoras, canais digitais e criadores de conteúdo. Isso ampliou enormemente o mercado potencial.

Outro diferencial importante é o ecossistema. Um cliente pode começar com uma câmera ou um switcher e, gradualmente, incorporar gravação, streaming, armazenamento, colaboração e pós-produção com o DaVinci Resolve. Do ponto de vista do distribuidor, isso modifica completamente o mercado. Em vez de vender apenas para um grupo reduzido de grandes operadores, passamos a atender milhares de novos produtores. O desafio atual já não é somente facilitar o acesso à tecnologia, mas oferecer capacitação para que todo esse potencial possa ser aproveitado corretamente.

8. Na Church Tech Expo, vocês destacaram que igrejas e eventos ao vivo já demandam qualidade cada vez mais profissional, com fluxos de trabalho modernos, acessíveis e eficientes. Como você avalia o crescimento desse segmento e o nível de maturidade técnica das igrejas no Brasil?
As igrejas representam atualmente um dos segmentos mais ativos do mercado audiovisual brasileiro. Muitas produzem conteúdo todos os dias, realizam transmissões ao vivo e mantêm uma comunicação permanente com comunidades locais e internacionais. O nível de maturidade é muito diverso. Existem igrejas com estruturas comparáveis às de grandes emissoras e outras que estão dando os primeiros passos. No entanto, praticamente todas já compreenderam que a qualidade da imagem, do áudio e a estabilidade da operação são fundamentais.

A próxima etapa desse crescimento está na profissionalização: melhorar a iluminação, o áudio, as câmeras, a intercomunicação, a operação multicâmera, a automação e a distribuição para diferentes plataformas. Durante a Church Tech Expo, também observamos uma forte demanda por fluxos de trabalho eficientes, que possam ser operados por equipes pequenas ou por voluntários. Por isso, integração, facilidade de uso, capacitação e suporte são fatores decisivos para esse segmento.

9. O mercado está falando cada vez mais sobre produção remota, cloud, IP, conectividade sem fio, colaboração e eficiência operacional. Na sua visão, quais dessas tendências estão mais próximas da realidade brasileira e quais ainda dependem de capacitação e infraestrutura?
A conectividade sem fio, a produção remota e o vídeo sobre IP já fazem parte da realidade brasileira, principalmente em eventos, esportes, igrejas, produções corporativas e operações de streaming. O IP está avançando porque oferece flexibilidade, permite compartilhar recursos e reduz a necessidade de deslocar grandes equipes de trabalho. A comunicação sem fio, as câmeras PTZ e os sistemas de contribuição remota também estão muito próximos das necessidades atuais do mercado.

A produção completamente baseada em nuvem ainda depende de fatores como conectividade, custos recorrentes, segurança e capacitação. Por isso, considero que, nos próximos anos, deverá predominar um modelo híbrido: uma parte da operação será local, outra será remota e determinados processos serão realizados na nuvem. A tecnologia já existe. O principal desafio é preparar os profissionais para projetar, operar e proteger essas estruturas.

10. Como líder de uma empresa que representa marcas globais e atua no desenvolvimento de revendas, suporte, treinamento e relacionamento com fabricantes, qual é a visão do Grupo Pinnacle para os próximos anos no Brasil e na América Latina?
Nossa visão é continuar fortalecendo o Grupo Pinnacle como uma plataforma regional de desenvolvimento do mercado audiovisual. Queremos representar marcas globais, mas também construir uma presença local sólida para cada uma delas. Isso significa desenvolver revendedores, formar integradores, capacitar profissionais, oferecer suporte técnico, manter um relacionamento próximo com os fabricantes e gerar oportunidades em diferentes verticais.

Também queremos ampliar nossa atuação em áreas como produção remota, vídeo sobre IP, inteligência artificial aplicada ao audiovisual, automação, streaming e novos modelos de mídia digital. Acreditamos que a América Latina possui uma enorme capacidade criativa, mas ainda precisa de maior acesso à tecnologia, ao conhecimento e ao financiamento. Queremos contribuir para reduzir essa distância. Nosso objetivo não é apenas vender mais equipamentos. É ajudar a construir um mercado audiovisual mais profissional, conectado e sustentável, no qual fabricantes, canais, profissionais e produtores possam crescer juntos.

* Sobre o Panorama 10P
O Panorama 10P é a nova coluna de entrevistas da Panorama Audiovisual. A cada edição, dez perguntas serão apresentadas a executivos e profissionais de destaque, abordando suas trajetórias, estratégias, visões de mercado e perspectivas para o futuro da indústria audiovisual.

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