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Riedel no SailGP do Rio revela infraestrutura invisível que sustenta comunicação, dados e imagens em operação extrema ao vivo

Cobertura técnica mostra como rede integrada garante transmissão, segurança e desempenho no limite em evento global de vela de alta velocidade

Por Panorama Audiovisual

Por Panorama Audiovisual
No local, a convite da Riedel Communications

Na Baía de Guanabara, os catamarãs F50 parecem desafiar a física: aceleração brutal, curvas milimétricas e decisões tomadas em segundos. Para quem assiste, tudo chega como um espetáculo contínuo, com câmeras coladas na ação, áudio inteligível, replay no tempo certo, dados integrados à narrativa e uma transmissão capaz de acompanhar o ritmo de um esporte que não permite pausa.

O que quase ninguém vê é a camada que sustenta essa experiência: uma infraestrutura integrada de comunicação, vídeo, RF, intercom, dados e telemetria, desenhada para operar em ambiente marítimo, com mobilidade total e tolerância praticamente zero a falhas.

A convite da Riedel Communications, a Panorama Audiovisual esteve presente no SailGP do Rio de Janeiro para acompanhar os bastidores técnicos da operação. A visita guiada foi conduzida por Florian Reider, Programme Director Maritime Competitions da Riedel Communications, que apresentou o projeto em detalhes, dos sistemas embarcados nos F50 ao compound técnico em terra. Na etapa final, Dave McCulloch, Systems Architect da Riedel Communications, aprofundou a arquitetura de sistemas que conecta barcos, produção, coaches, arbitragem, segurança, broadcasters e centros remotos.

A etapa ENEL Rio Sail Grand Prix aconteceu nos dias 11 e 12 de abril de 2026, na Baía de Guanabara, marcando a estreia de uma cidade da América do Sul no calendário da competição.

Um evento que não é apenas filmado: é orquestrado como rede
O SailGP é um dos ambientes mais exigentes do esporte ao vivo. Diferentemente de uma produção em arena, onde boa parte dos pontos de câmera, cabos e estruturas pode ser previamente estabilizada, a operação acontece sobre a água, com plataformas móveis, longas distâncias, obstáculos naturais, variação climática, restrições de espaço e necessidade constante de redundância.

A Riedel descreve sua atuação como uma solução full service para o campeonato. Isso inclui toda a infraestrutura de comunicação, cabeada e sem fio, com Bolero, rádios TETRA, rádios VHF, painéis de intercom e sistemas usados por produção, operação, times e estruturas de apoio. Além disso, a empresa viabiliza a transmissão de vídeo sem fio no local, incluindo câmeras embarcadas nos F50, links RF, recepção em terra e distribuição para os diferentes destinos de produção.

O material técnico apresentado pela Riedel resume esse desenho como uma abordagem 360 graus, cobrindo simultaneamente broadcast, competição e evento. Entram nesse ecossistema câmeras onboard nos F50, microfones embarcados e de ambiência, links RF para chase boats e helicóptero, câmeras handheld RF, PoV cameras para coaches, distribuição e monitoramento via MediorNet TDM e IP, infraestrutura de intercom e rádio, distribuição para video walls, data link MESH entre barco e costa e o sistema de Coach Review baseado em Simplylive.

Na prática, o SailGP não é simplesmente captado por câmeras. Ele é operado como uma grande rede dinâmica, em que vídeo, áudio, dados, controle remoto, telemetria e comunicação precisam circular de forma integrada.

F50: um estúdio móvel sobre a água
Um dos conceitos centrais da operação é transformar os catamarãs F50 em verdadeiros estúdios móveis de TV sobre a água. Cada barco carrega um conjunto técnico customizado, projetado para resistir à vibração, impacto, sol, vento, spray constante e água salgada.

Nos F50, a Riedel utiliza uma câmera PTZ frontal, desenvolvida sob medida com proteção à prova d’água, e uma câmera fixa traseira. Os sinais dessas câmeras, originalmente em 1080p, são enviados para o media case, o hub técnico embarcado no barco. Ali, os sinais são combinados em um único fluxo 4K quad split, solução mais eficiente do que transportar múltiplos sinais independentes do barco até a costa.

Depois, em terra, esse fluxo é decodificado e separado novamente em feeds individuais para distribuição, monitoramento, produção e análise. A mesma lógica também abre espaço para evoluções: como o transporte já acontece em uma tela 4K dividida, a operação pode incorporar novas câmeras e preencher quadrantes adicionais conforme o projeto evolui.

O sistema embarcado inclui ainda beltpacks Bolero à prova d’água, headsets customizados para os capacetes dos velejadores, uma unidade no topo do mastro, o mast head unit, para transmissão de vídeo, comunicação e dados, além de antenas externas adaptadas à construção em fibra de carbono do barco.

O controle remoto das câmeras é outro ponto crítico. As PTZ embarcadas são operadas a partir de Londres, enquanto o sinal sai do barco, chega à costa, passa pela infraestrutura técnica e segue até o centro de produção. Isso cria desafios de latência, especialmente porque qualquer comando do operador precisa retornar ao barco. A engenharia do sistema vem sendo constantemente ajustada para reduzir esses atrasos e tornar a resposta mais natural para os operadores.

Quando água salgada vira requisito de engenharia
No mar, comunicação não é conveniência: é performance, segurança e coordenação. E a água salgada muda completamente a régua de confiabilidade.

Florian Reider explicou que, no início do projeto, a premissa de que um equipamento com classificação IP seria suficiente para operar na água se mostrou limitada. Água salgada não se comporta como chuva ou água doce. Ela acelera a corrosão, penetra em pontos críticos e degrada componentes com uma agressividade muito maior.

A resposta da Riedel foi desenvolver uma versão totalmente selada do beltpack Bolero, capaz de operar em condições extremas. Segundo a equipe, o equipamento pode ser submerso e também é utilizado por mergulhadores de resgate pela robustez.

A adaptação também chegou à usabilidade. Para os velejadores, o beltpack foi simplificado ao essencial: energia, volume e comunicação do tipo push to talk. A autonomia citada para a unidade selada é de aproximadamente nove horas. Nos chase boats, onde o nível de spray tende a ser menor, a operação pode usar beltpacks padrão com proteção adicional quando necessário.

Os headsets também precisaram evoluir. Modelos convencionais sofriam com a obstrução das membranas de microfone por água salgada, degradando o áudio até tornar a comunicação impraticável. A solução incluiu um sistema customizado e um material hidrofóbico para o windscreen, capaz de drenar rapidamente a água e recuperar a inteligibilidade em poucos segundos.

Mast head unit, limpeza remota e media case
No topo do mastro, o mast head unit concentra parte essencial da engenharia embarcada: vídeo, comunicação e rede IP mesh para dados e telemetria. É também nesse conjunto que se integra a câmera PTZ customizada, que precisa enfrentar um problema simples e direto: sal na lente.

Para isso, a Riedel desenvolveu um sistema remoto de limpeza com reservatório de líquido e mecanismo de home position. Quando necessário, a câmera retorna a uma posição específica, recebe a ação do sistema de limpeza e de um pequeno limpador, e volta ao enquadramento. O detalhe resume a lógica de produção remota do campeonato: quem aciona câmera, limpeza e wiper está em Londres.

Já o media case funciona como o coração técnico do barco. O módulo concentra processamento, transmissão, encoder para o quad split, gravação local e integração com a eletrônica da embarcação. Como os F50 são construídos em fibra de carbono, antenas internas poderiam sofrer perdas e instabilidade, por isso o projeto utiliza antenas externas, inclusive uma dedicada ao Bolero.

A redundância também é embarcada. Em casos de capotagem, uma possibilidade real em um esporte de alta performance, a conexão pode ser comprometida quando o mast head unit entra em contato direto com a água. Por isso, há gravação local de mídia e comunicações, garantindo recuperação posterior mesmo em situações críticas.

Nos chase boats, a lógica se repete em uma versão mais compacta, com foco maior em comunicação do que em vídeo. Isso também reduz a carga térmica. No F50, o encoder é um dos componentes que mais gera calor, exigindo dissipação passiva e ventilação ativa para evitar superaquecimento.

A integração elétrica e de dados é total: a energia vem do próprio sistema do SailGP, enquanto o media case se conecta ao ecossistema eletrônico do barco, transportando telemetria, medições adicionais e sinais de retorno. Um exemplo é o envio de alertas sonoros aos headsets dos velejadores em situações de risco, disparados por gatilhos do sistema.

Coach Review: mais dados, menos improviso
A área de Coach Review revela como a tecnologia deixou de servir apenas ao broadcast e passou a influenciar diretamente a forma como as equipes tomam decisões. Cada time conta com uma estação dedicada, baseada em Simplylive, integrada ao ambiente de comunicação. Mas, diferente de uma operação tradicional de replay, não há um operador específico para isso: os próprios coaches operam o sistema.

Eles conseguem voltar no tempo, gravar e exportar trechos, navegar pelas imagens, alternar ângulos e configurar visualizações de acordo com as necessidades do momento. O que poderia ser apenas uma ferramenta de pós-produção se transforma em recurso de performance esportiva.

Segundo o relato de Florian Reider, essa mudança ganhou força quando Thomas Riedel passou a se envolver de forma mais direta com o projeto do time da Alemanha. Até então, coaches ainda trabalhavam em barcos de apoio, tentando observar e anotar durante as regatas em meio a vento e instabilidade. A proposta foi aproximar o modelo do que se vê na Fórmula 1: um ambiente confortável, climatizado, com acesso a vídeo, dados e comunicação de forma simultânea.

A ideia encontrou resistência inicial, mas o teste com uma estação Simplylive mostrou rapidamente o valor do novo fluxo. Durante a corrida, os coaches passaram a gravar lances, organizar clipes, baixar materiais e levar tudo para o debrief pós-prova.

O sistema também apoia discussões com a Race Management, especialmente em incidentes e penalidades, e tem função de segurança. Em caso de ocorrência na água, replays e gravações podem ser disponibilizados ao time médico enquanto a equipe de resgate ainda está em deslocamento.

RF, recepção e distribuição: do barco para Londres
Outro ponto central da operação é a forma como a Riedel recebe, organiza e distribui os sinais vindos da água. A cadeia começa nos barcos, com o mast head unit dos F50 e tecnologias semelhantes aplicadas aos chase boats, responsáveis por enviar vídeo, dados, comunicação e telemetria de volta à estrutura em terra.

No Rio, a operação utilizou múltiplas posições de recepção RF, incluindo uma estrutura elevada próxima ao compound, outra na área dos barcos e uma terceira no Pão de Açúcar, ampliando a cobertura sobre a Baía de Guanabara.

Nessas posições, diferentes sistemas trabalham em paralelo, incluindo VHF, TETRA, recepção de vídeo, antenas para rede mesh e captação em altura. A lógica é operar com diversidade, alternando automaticamente para a fonte mais estável.

Todo esse fluxo chega ao centro técnico da Riedel, que no Rio operou em contêineres. Dali, os sinais seguem para Londres, para a unidade móvel da TV Globo e para áreas técnicas, comentários e monitoramento.

Na prática, o compound funciona como um grande hub de convergência, organizando e distribuindo sinais para produção global, transmissão local e equipes internas.

Um compound mais colaborativo
A operação também evoluiu fisicamente, aproximando equipes técnicas em um mesmo ambiente. Profissionais do SailGP, engenheiros de intercom, TI, RF e parceiros trabalham lado a lado, agilizando decisões.

As estações de trabalho são modulares, montadas rapidamente a partir de cases. Segundo a equipe, após posicionamento e conexão, a operação básica pode estar ativa em duas a três horas.

MediorNet, ST 2110, IP mesh e diversidade
A arquitetura combina MediorNet em IP com TDM, criando uma malha híbrida roteável. A operação trabalha com cerca de 30 a 34 câmeras, sendo apenas uma cabeada, com forte dependência de RF.

A Riedel utiliza múltiplas frequências e RF diversity para garantir estabilidade. Cada F50 envia sinais em 4K quad split, que alimentam broadcast, coaches, segurança e análise. A rede também transporta dados e telemetria por meio de IP mesh, criando um ambiente resiliente capaz de se reorganizar automaticamente.

Artist, Bolero Bridge e alarmes de segurança
O sistema Artist atua como núcleo da comunicação, com cerca de 990 portas em uso e dezenas de sistemas interligados. A operação conta com cerca de 40 ilhas Bolero, 250 beltpacks e aproximadamente 400 rádios TETRA. O Bolero Bridge integra essas redes, permitindo comunicação estável em ambientes desafiadores.

Entre os recursos, estão alarmes automáticos de segurança enviados diretamente aos headsets dos velejadores em situações de risco. No transporte de vídeo para Londres, a operação busca reduzir latência e aumentar eficiência, com melhorias contínuas no workflow.

Thomas Riedel, Sebastian Vettel e a ponte com a Alemanha
A presença da Riedel no SailGP também tem componente estratégico. Thomas Riedel é um dos nomes por trás do Germany SailGP Team, ao lado de Sebastian Vettel.

Essa conexão reforça a integração entre tecnologia, dados e performance esportiva, com influência clara de modelos da Fórmula 1.

O que o Brasil leva desse bastidor
A passagem do SailGP pelo Rio mostrou um nível de integração que aponta caminhos para eventos esportivos e transmissões ao vivo.

A experiência final depende diretamente da infraestrutura. Sem rede, não há narrativa. Sem RF, não há mobilidade. Sem intercom confiável, não há coordenação. Sem dados, a análise é limitada.

No SailGP, tudo opera no limite, com tecnologia invisível garantindo que o espetáculo aconteça.

Nota editorial: o Panorama Audiovisual acompanhou a visita técnica ao SailGP do Rio de Janeiro a convite da Riedel Communications.

Site relacionado: https://www.riedel.net/

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