O curta-metragem imersivo Desert Palms, dirigido por Tristan Seniuk, foi produzido com a câmera cinematográfica Blackmagic URSA Cine Immersive e estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza. O projeto foi desenvolvido no âmbito do programa Biennale College Cinema – Immersive, que investiga as possibilidades das mídias imersivas como forma de expressão artística.
Enquanto muitas produções imersivas transportam o público para cenários extraordinários, como montanhas nevadas ou profundezas oceânicas, Desert Palms aposta em uma situação cotidiana: a espera em um pronto-socorro.
A história se passa na sala de espera de uma unidade de atendimento médico localizada em frente a um grande festival de música. O filme acompanha diversos personagens feridos, que demonstram crescente impaciência diante da demora no atendimento em um hospital sobrecarregado.
Segundo Seniuk, a ideia surgiu durante um fim de semana em um retiro de cineastas com amigos. O grupo alugou um Apple Vision Pro e assistiu a diferentes produções imersivas, percebendo que muitas apostavam em cenários grandiosos e experiências espetaculares.
“Embora grande parte do conteúdo se baseasse no espetáculo, transportando o espectador para terras exóticas, pensamos em lugares comuns e cotidianos, reconhecíveis por todos. Chegamos a um lugar que todos nós, a contragosto, precisamos frequentar de vez em quando, um lugar que não empolga ninguém: uma sala de espera”, contou o diretor.
O projeto chamou a atenção do Biennale College Cinema – Immersive, iniciativa do Festival de Veneza voltada à exploração de novas linguagens audiovisuais. Com o financiamento concedido pelo programa, a câmera Blackmagic URSA Cine Immersive e o software DaVinci Resolve Studio, Seniuk teve sete meses para desenvolver e finalizar o filme a tempo da edição de 2026 do festival.
“Eu não teria ousado realizar um projeto imersivo sem a URSA Cine Immersive. Seu design simplificado e a capacidade de os arquivos Blackmagic RAW armazenarem os metadados de câmera tornaram o fluxo de trabalho extremamente atraente para mim. Como não é necessário costurar as imagens, basta arrastar e soltar as filmagens em uma linha do tempo e exportá-las, o que torna a câmera uma ferramenta essencial em projetos de produção cinematográfica imersivos”, explicou Seniuk.


A proposta de Desert Palms é colocar o espectador dentro de um ambiente virtual que reproduz um espaço físico, permitindo que cada pessoa escolha livremente para onde direcionar sua atenção. Para reforçar essa sensação, o diretor optou por filmar a história a partir de uma única posição, em um plano-sequência contínuo, sem cortes tradicionais.
“A premissa central do filme consiste em situar o espectador em um espaço físico, porém virtual, de modo que cada aspecto da narrativa e da encenação esteja a serviço da ideia da imersão total e da mecânica envolvida. Para maximizar essa sensação, optei por rodar o filme de uma única posição, como um único plano-sequência ininterrupto, que espelha a forma como nós, humanos, interagimos com o mundo. Não há cortes nem decisões curatoriais tomadas para o espectador por um cineasta onisciente ou um guia. O próprio espectador deve escolher para onde direcionar sua atenção no quadro e em qual pequena narrativa se concentrar, reproduzindo a maneira como vivenciamos o cotidiano”, afirmou.
O diretor também destacou que a diversidade de personagens contribui para aproximar a história da experiência humana. Entre os presentes na sala de espera estão moradores locais, frequentadores do festival e visitantes de outras cidades.
“Todos nós ficamos doentes, nos machucamos ou precisamos de cuidado em algum momento da vida e precisamos visitar um hospital. Também estamos retratando uma grande variedade de personagens, desde moradores locais até o público do festival e pessoas vindas de outras cidades. Mas há um tema central que conecta todos os personagens: nenhum deles quer estar ali, e todos estão ficando cada vez mais impacientes com a espera para receber tratamento. Devido ao espaço confinado da sala de espera, a interação com o outro é inevitável”, acrescentou.
A realização do curta apresentou desafios desde a elaboração do roteiro, que reúne 24 personagens com pequenas narrativas acontecendo simultaneamente. A escolha do elenco também exigiu atenção especial. Seniuk priorizou atores com experiência teatral, já que o formato de plano-sequência não permitia corrigir eventuais falhas de interpretação por meio da edição.
A locação foi outro ponto importante. Embora a sala tivesse formato retangular, era necessário encontrar um espaço com dimensões específicas para aproveitar adequadamente os pontos de foco da URSA Cine Immersive. O ambiente também precisava acomodar o elenco, transmitir a sensação de proximidade entre os personagens e oferecer duas portas para a movimentação da história, além de permitir a instalação discreta de equipamentos de iluminação no teto.
A iluminação esteve entre as maiores dificuldades técnicas. O filme foi captado a 90 quadros por segundo, com ISO 400, para manter o ruído de imagem no menor nível possível. Isso exigiu uma quantidade significativa de luz no cenário e um planejamento cuidadoso para esconder os equipamentos dentro do ambiente imersivo.
“Sabíamos que teríamos que encher o set de luz para obter a exposição correta, então pesquisamos muito e consultamos vários diretores de fotografia. A pesquisa de pré-produção e os testes de filmagem se mostraram essenciais para o planejamento de como incorporar a iluminação ao design da sala de forma integrada e invisível, já que é impossível esconder equipamentos e elementos de direção de arte dentro do espaço imersivo”, explicou Seniuk.
Uma das sequências mais desafiadoras ocorre durante uma queda de energia, quando todas as luzes se apagam e uma iluminação vermelha de emergência começa a piscar. Além de criar uma mudança visual e narrativa, o recurso ofereceu uma oportunidade estratégica para os atores interromperem suas performances.
A equipe também estava preocupada com a possibilidade de ruído excessivo nas imagens devido à baixa exposição e à utilização de uma única fonte de luz vermelha. No entanto, o resultado surpreendeu o diretor.
“No fim das contas, não houve problema algum: não tivemos ruído nenhum, mesmo com ISO 400. Foi um verdadeiro teste da capacidade da URSA Cine Immersive de trabalhar em condições de pouca luz”, relatou.
Na pós-produção, a montagem foi relativamente simples, já que o filme é composto por dois planos-sequência unidos por um corte oculto durante a queda de energia, além de uma cena adicional após os créditos.
O desenho de som, por outro lado, exigiu um trabalho complexo. Foram utilizadas mais de 100 trilhas de áudio, incluindo diálogos, efeitos Foley, sons do festival e ambiências. Todos os elementos precisaram ser espacializados de acordo com as dimensões exatas do ambiente apresentado no filme.
Para essa etapa, o designer de som Jon Hansen trabalhou com o Fairlight, integrado ao DaVinci Resolve Studio. Embora nunca tivesse utilizado a ferramenta anteriormente, conseguiu desenvolver a mixagem espacial e destacou a facilidade de adaptação ao sistema.
“Embora inicialmente eu tivesse usado um setup comum, problemas técnicos persistentes me levaram a experimentar o Fairlight. Foi surpreendentemente fácil de adotar, e sua integração fluida ao fluxo de trabalho de pós-produção tornou a colaboração muito mais eficiente. O suporte do Fairlight ao formato Apple Spatial Audio foi essencial. Outro aspecto que me chamou a atenção foi a possibilidade de iterar o trabalho trocando arquivos .DRT entre nós, sem precisar exportar, importar e posicionar arquivos de áudio a cada nova iteração”, comentou Hansen.
Além da montagem e da correção de cores no DaVinci Resolve Studio, a equipe utilizou o Fairlight para a mixagem espacial e o Fusion para converter elementos gráficos 2D com canal alfa para o formato Apple Immersive Video.
“Tive que reaprender muito do que já sabia sobre o processo de pós-produção para atender às exigências deste projeto e entregá-lo no nível de qualidade e dentro das especificações que eu desejava. Felizmente, pudemos contar com o suporte do DaVinci Resolve Studio”, disse Seniuk.
O diretor também destacou a integração entre as ferramentas como uma das principais vantagens do software.
“Ter tudo sob o mesmo lugar é o melhor de trabalhar com o DaVinci Resolve Studio, e é por isso que sou fã há tantos anos. Saber que todos os recursos se comunicam entre si e que não é preciso ficar transferindo o trabalho entre diferentes aplicativos e reconectando os arquivos para concluir um projeto é muito bom. Além disso, o pipeline integrado para trabalhar com clipes imersivos de ponta a ponta, da câmera à pós-produção, é uma grande vantagem”, afirmou.
Para Seniuk, a experiência com Desert Palms demonstrou que o cinema imersivo exige uma nova abordagem em relação aos métodos tradicionais de produção audiovisual.
“No cinema imersivo, é preciso repensar por completo cada aspecto do cinema tradicional. Compreender a lógica da narrativa imersiva abriu um enorme espaço para a minha criatividade. O grande diferencial do cinema imersivo está na intimidade e nas emoções sutis. Ao colocar o espectador dentro da própria história, sem nada além daquele mundo para onde olhar, deixamos de ser meros espectadores passivos e nos tornamos testemunhas ativas”, concluiu.
Desert Palms foi selecionado, desenvolvido e produzido pelo programa Biennale College Cinema – Immersive, com apoio de um financiamento de produção de 75 mil euros concedido por La Biennale di Venezia.
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