A convergência entre processamento de mídia, workflows definidos por software, produção ao vivo e inteligência artificial vem acelerando uma profunda transformação na indústria audiovisual. Nesse cenário, a Cinnafilm e a Glookast anunciaram uma nova etapa de colaboração tecnológica com a integração do Tachyon, solução da Cinnafilm reconhecida pela conversão de padrões, frame rate conversion, desentrelaçamento e processamento de imagem de alta qualidade, ao ecossistema de media processing da Glookast.
Em entrevista à Panorama Audiovisual, Lance Maurer, CEO e fundador da Cinnafilm, e Matt Silva, CEO da Glookast, explicaram como a parceria nasce da união de duas empresas especializadas em áreas complementares. De um lado está a Cinnafilm, com mais de 15 anos de desenvolvimento de tecnologias avançadas para processamento de imagem. Do outro, a Glookast, cuja plataforma reúne ingest, workflows, gerenciamento de metadados, automação e processamento de mídia.
Segundo Maurer, a Cinnafilm é amplamente reconhecida pelo mercado por sua capacidade de resolver desafios complexos de processamento de imagem. “A Cinnafilm é conhecida na indústria pelo processamento de imagem. Trabalhamos com casos bastante difíceis, como desentrelaçamento, conversão de padrões, conversão de formatos, gerenciamento de cor e outros processos que exigem alto nível de computação”, explicou.
Durante muitos anos, esse trabalho esteve concentrado principalmente no universo dos arquivos. No entanto, com o avanço das infraestruturas baseadas em GPU, dos workflows definidos por software e de ambientes de processamento mais flexíveis, a empresa passou a expandir sua atuação também para o segmento de produção ao vivo.
“Somos uma empresa 100% software e nossa tecnologia é centrada em GPU, especialmente com GPUs NVIDIA, porque realizamos cálculos muito pesados. Nos últimos anos, ficou claro que a tecnologia necessária para levar esse tipo de processamento ao ambiente live se tornou mais acessível”, observou Maurer.
Essa evolução abriu espaço para que processos tradicionalmente executados em equipamentos dedicados, muitas vezes baseados em SDI e hardware específico, passassem a ser realizados inteiramente por software. É justamente nesse contexto que o Tachyon assume papel central na nova parceria.
A solução é utilizada principalmente em tarefas como desentrelaçamento, conversão entre padrões internacionais de vídeo, frame rate conversion e compensação de movimento. Em mercados globais, especialmente na transmissão de eventos esportivos e na distribuição internacional de sinais, esse tipo de tecnologia tornou-se cada vez mais estratégico. Os feeds precisam circular entre diferentes regiões, padrões e infraestruturas, como Europa, Américas e outros mercados, exigindo conversões confiáveis entre sistemas como PAL, NTSC e diferentes cadências de imagem.
“Há muita energia sendo colocada hoje em esportes ao vivo, e isso torna ainda mais importante conseguir enviar feeds para a Europa, para as Américas e vice-versa. Enquanto existirem diferentes padrões técnicos, sempre haverá necessidade de uma solução capaz de receber esses sinais, processá-los e distribuí-los corretamente entre continentes”, ressaltou Maurer.
A parceria com a Glookast surge justamente nesse contexto. A integração do Tachyon Live ao pipeline de processamento da empresa permite que a conversão ocorra dentro do próprio fluxo de ingest e processamento, eliminando a necessidade de enviar o conteúdo para uma etapa externa após a conclusão do job.
Matt Silva destacou que essa mudança representa uma diferença significativa. Historicamente, em workflows baseados em arquivos, era comum processar o conteúdo, enviá-lo ao Tachyon, aguardar a execução da tarefa e somente depois dar continuidade ao fluxo. Com a nova integração, o Tachyon passa a operar de forma nativa dentro do pipeline de processamento da Glookast.
“Nós incorporamos o Tachyon Live ao nosso pipeline de media processing. Isso significa que a conversão de padrões, a compensação de movimento e a conversão de frame rate podem acontecer como parte do processo de ingest, tanto em live quanto em file”, detalhou Silva.
A lógica varia de acordo com o tipo de operação. Em workflows de arquivo, o foco costuma estar na máxima qualidade da entrega. Já nas aplicações ao vivo, a prioridade passa a ser a baixa latência, sem abrir mão de um elevado padrão de processamento. Para a Glookast, essa integração fortalece uma das áreas mais importantes da plataforma: o processamento de mídia.
Silva observou que a empresa já oferecia recursos como resizing e outros processos dentro de seu sistema, mas reconheceu que o Tachyon representa uma tecnologia best of breed em conversão de padrões e frame rate conversion com compensação de movimento. “Nós não somos uma empresa especializada em processamento de imagem no nível da Cinnafilm. Esse é exatamente o motivo pelo qual trouxemos essa tecnologia para dentro do nosso pipeline. Agora podemos oferecer conversão de padrões e frame rate conversion com um nível de qualidade muito superior.”
A parceria também possui diferentes dimensões comerciais e territoriais. No caso da integração entre Cinnafilm e Glookast, trata-se de uma relação global, estruturada como uma parceria OEM de software. A Glookast poderá oferecer o plugin Tachyon por meio de sua rede de canais, parceiros e contas atendidas diretamente em diferentes mercados.
Para Maurer, a aproximação com a Glookast surgiu a partir de uma afinidade estratégica. “O que me chamou atenção foi a forma como a Glookast enxerga o futuro. Precisamos olhar para onde esse mercado estará em cinco ou dez anos e entender como tudo isso vai funcionar em conjunto. Percebi que compartilhávamos uma visão bastante alinhada sobre a evolução dessas tecnologias”, comentou.
Essa visão passa diretamente pela transformação do setor em direção a workflows definidos por software. Maurer acredita que, nos próximos anos, uma parcela cada vez maior das operações tradicionalmente executadas por hardware migrará para ambientes baseados em software. “Acredito que, em cinco a dez anos, talvez 90% de tudo o que é feito neste espaço seja realizado em software. Muitas operações que hoje fazem parte do hardware passarão para painéis e aplicações de software”, projetou.
Na avaliação do executivo, a inteligência artificial terá um papel importante nesse processo, não como substituta das tecnologias existentes, mas como uma camada capaz de facilitar a integração, a automação e o acesso às ferramentas. “A IA está começando a permitir que todos se tornem um pouco mais capazes de construir e integrar software. Não se trata de eliminar a complexidade, mas de tornar essas integrações muito mais acessíveis”, acrescentou.
Matt Silva compartilha dessa visão, mas faz uma ressalva importante. Em um mercado que evolui rapidamente, prever com precisão os próximos cinco anos tornou-se um exercício cada vez mais difícil. Por isso, a Glookast concentra seus esforços em separar decisões estruturais daquelas que podem ser ajustadas ao longo do tempo. Para ele, o mais importante é construir uma arquitetura sólida.
“Se você acerta a fundação e a arquitetura, as demais camadas podem ser adaptadas conforme o mercado evolui. É dessa forma que estamos conduzindo nosso processo de desenvolvimento”, explicou.
Nesse contexto, a inteligência artificial não é encarada apenas como um recurso isolado ou um termo de marketing. Para Silva, ela já começa a gerar impactos concretos, embora ainda esteja distante de alcançar todo o seu potencial.
“Estamos incorporando isso à forma como desenvolvemos nossas soluções. A IA pode atuar como uma camada de orquestração e assistência sobre uma base sólida. Mas nosso diferencial não está simplesmente em adicionar serviços de IA ao produto. Está na tecnologia que realmente manipula a mídia, processa o conteúdo, trabalha com metadados e administra todo o workflow”, ressaltou.
Essa distinção é central para a estratégia da Glookast. A empresa considera que seu principal diferencial competitivo está na profundidade tecnológica construída ao longo dos anos nas áreas de media processing, metadados, ingest e workflows. Nesse modelo, a IA atua como uma camada superior, responsável por orquestrar processos, ampliar a eficiência operacional e facilitar a automação, sem substituir a necessidade de uma base tecnológica robusta.
Maurer concorda com essa visão. Para ele, a indústria vive um momento em que ferramentas altamente sofisticadas podem ser disponibilizadas de forma muito mais acessível. “Existem problemas fundamentais que continuam precisando ser resolvidos. O caminho correto é construir sobre essas bases e utilizar a IA para ampliar capacidades. Não se trata de substituir tudo, mas de permitir que equipes menores sejam muito mais produtivas”, avaliou.
Na visão dos executivos, essa transformação também modifica a forma como empresas de mídia e broadcast interagem com a tecnologia. Sistemas que antes exigiam longos processos de implantação, integração presencial e desenvolvimento customizado tendem a se tornar mais simples de operar, replicar e integrar. APIs, exemplos de código, arquiteturas abertas e ferramentas assistivas podem permitir que clientes coloquem soluções em funcionamento em dias, e não mais em meses.
Maurer enxerga nesse cenário uma oportunidade especialmente relevante para empresas menores, mas altamente especializadas. “Não precisamos ser grandes para fazer coisas grandes. Se a infraestrutura escala e a tecnologia é bem construída, empresas pequenas e poderosas conseguem entregar soluções muito relevantes”, observou.
A conversa também abordou a evolução da computação em nuvem na indústria audiovisual. Para Maurer e Silva, o cloud oferece um bom paralelo para compreender o atual momento da inteligência artificial. Há cerca de dez anos, o mercado discutia intensamente a adoção da nuvem, mas, na prática, a migração mostrou-se mais complexa do que muitos imaginavam. Diversas empresas realizaram migrações parciais e, em muitos casos, apenas transferiram aplicações para a nuvem, sem adaptar suas arquiteturas para um ambiente verdadeiramente cloud native.
Silva observou que uma aplicação nativa em nuvem exige muito mais do que simplesmente operar em infraestrutura cloud. Segundo ele, conceitos como infraestrutura como código (IaC), escalabilidade sob demanda, automação de deploy e o uso de ferramentas modernas fazem parte desse modelo. “Muitas empresas do nosso setor não adaptaram totalmente seus stacks para essa realidade. Isso contribuiu para que o mercado encontrasse uma residência híbrida”, analisou.
Apesar disso, ambos consideram o modelo híbrido uma consequência natural da indústria de mídia. Broadcast, produção ao vivo e operações corporativas possuem demandas específicas, e nem tudo precisa, ou faz sentido, migrar integralmente para a nuvem. O desafio agora é desenvolver arquiteturas capazes de operar de forma integrada entre ambientes legados, infraestruturas modernas, microsserviços, sistemas locais e cloud.
A evolução das plataformas de mídia aponta para modelos cada vez mais inteligentes, capazes de atuar como uma camada de integração entre sistemas legados e arquiteturas modernas baseadas em microsserviços. A proposta é permitir que as organizações acelerem a adoção de novas tecnologias, incluindo recursos de inteligência artificial, preservando investimentos já realizados e reduzindo a necessidade de migrações abruptas.
Na avaliação de Silva, esse modelo representa uma das tendências mais importantes para os próximos anos, ao viabilizar uma modernização gradual das operações sem comprometer a continuidade dos fluxos de trabalho. “Alguns clientes talvez ainda não estejam prontos para mudar. Outros podem não ter orçamento ou alinhamento cultural para isso. Então, como permitir que ambientes legados aproveitem ferramentas modernas, como IA, sem exigir uma troca completa? Estamos desenvolvendo uma camada capaz de controlar sistemas monolíticos até seus limites e, ao mesmo tempo, orquestrar microsserviços modernos que possam ser escalados individualmente”, explicou.
Para o executivo, esse pode ser um dos principais caminhos para a próxima geração do mercado de media & entertainment: um modelo híbrido não apenas entre ambientes on-premises e cloud, mas também entre sistemas legados, microsserviços, automação, inteligência artificial e plataformas especializadas em processamento de mídia.
A integração do Tachyon ao ecossistema da Glookast, portanto, vai além de uma parceria pontual entre duas empresas. Ela reflete uma visão mais ampla sobre a evolução dos workflows audiovisuais, combinando processamento de imagem de alta qualidade, media processing escalável, arquitetura de software, workflows híbridos e camadas inteligentes de automação em um único ambiente.
Para Maurer, esse tipo de arquitetura será fundamental em um futuro no qual câmeras, sinais, metadados e conteúdos precisarão estar no formato correto, disponíveis rapidamente e prontos para alimentar diferentes aplicações, incluindo sistemas baseados em inteligência artificial. “Todas essas câmeras estão gerando sinais que precisam estar no formato certo e ser facilmente utilizados depois. Muito em breve, esses dados também precisarão alimentar sistemas de IA. Há poucos anos, isso representaria um volume de dados impossível de processar. Agora, podemos combinar essas informações com IA e extrair exatamente o que precisamos”, comentou.
Ao final da conversa, a mensagem transmitida pelos dois executivos é clara: a indústria audiovisual entra em uma nova fase, marcada pela convergência entre software, inteligência artificial, processamento avançado de mídia e arquiteturas híbridas. Para empresas como Cinnafilm e Glookast, o desafio não é apenas acompanhar essa transformação, mas criar as bases para que broadcasters, produtoras, plataformas e empresas de mídia operem com mais qualidade, flexibilidade e eficiência.
Com o Tachyon integrado ao pipeline da Glookast, as duas empresas passam a oferecer ao mercado uma solução capaz de reunir qualidade de processamento, baixa latência, conversão de padrões, frame rate conversion e workflows mais inteligentes, atendendo tanto às demandas atuais de produção e distribuição quanto às necessidades que começam a surgir para os próximos anos.
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